Caracterização do "Trem Baiano"

Caracterização do "Trem Baiano"

Os trens utilizados pelos migrantes nas linhas da Central eram diários em 1960. Pelos seus pequenos recursos e às vezes enormes famílias, eram obrigados a optar pelo menor gasto com transporte, e sendo assim, os trens de menor velocidade (que paravam em mais estações) eram os utilizados. A ferrovia, antevendo esta situação, fazia com que houvesse correspondência entre os trens, e desta forma ainda evitava a mistura dos passageiros dos trens mais nobres, como os de luxo e expressos.

Majoritariamente, os migrantes viajavam em carros de segunda classe, cujas passagens custavam cerca de três quartos dos preços da primeira classe. A título de comparação, em 1960, uma viagem entre Monte Azul e Belo Horizonte, custava Cr$ 413,00 no Rápido em 1.ª Classe, Cr$ 298,00 na 2.ª Classe, e Cr$ 155,00 em 1.ª Classe no trem de pequena velocidade.

Rosa Terêncio, que sempre viajou de Monte Azul para São Paulo em primeira classe, descreve em entrevista para o livro de Ely Souza Estrela, a segunda classe, onde os migrantes viajavam da seguinte forma: "Uma tristeza, as cadeiras... de madeira, tábua e aquilo cheio, cheio e eles com excesso de bagagem, as comidas tudo em volta. Iam comendo aquelas farofas e aquela ossada no pé, e menino sujando, e não tinha restaurante pra eles nem nada. Simplesmente pediam água, aquele pessoal que trabalhava fornecia água, vaso grande de água... mas uma tristeza... aquela imundície. Gente doente, mas uma tristeza. O trem cheio. Cheiíssimo."

A dieselização na Estrada de Ferro Central do Brasil avançou consideravelmente na década de 50, fazendo com que as locomotivas a vapor fossem sendo progressivamente desativadas. Desta maneira o serviço de transportes foi melhorado, pois as viagens com locomotivas a vapor além de mais lentas, ainda era nociva aos passageiros, pois as fagulhas e fumaça da chaminé além sujar os passageiros e suas roupas, ainda podia queimá-los levemente. Segundo o livro A era diesel da EFCB, "no dia 15 de outubro de 1956 foi inaugurada oficialmente a tração diesel até Monte Azul, com a "GE 244" N.º 4323 fazendo o trem N-5 procedente de Belo Horizonte."

Outra melhoria nas condições para os usuários foi a substituição dos carros de passageiros antigos construídos em madeira por modelos modernos de aço. Porém, no final da década de 70, ao menos no trem entre Belo Horizonte e São Paulo, ainda era utilizado um carro de madeira associado a outros metálicos e com um ou dois carros de bagagem/chefe do trem.

Mario Garrote foi condutor deste trem no trecho entre São Paulo e Barra do Piraí e faz um interessante relato a respeito dele:

"Também circulei como passageiro nele, a clientela era diversificada e tinha vários carros, alguns de primeira classe (com poltrona estofada) e outros de segunda classe (com bancos de madeira). O nome "Trem Baiano" dá-se devido ao grande números de Baianos que circulavam nestes trens, na realidade era um "vale tudo", tinha mascates que vendiam bebida alcoólica (principalmente conhaque), este trem tinha várias paradas, inclusive em alguns pontos os passageiros acenavam para que o trem parasse. (...) Ahhhh!!!!! e os freqüentes atrasos, este trem raramente andava no horário... nada diferente da nossa aviação de hoje... rsrsrssss... (...) Para você ter uma idéia, o trem cheirava urina podre... rsrsrsss... mulheres, homens e crianças, dormiam esparramados ao longo dos vagões, um verdadeiro caos. Em São Paulo, o trem era lavado em Roosevelt. Em Barra do Piraí trocava-se a locomotiva. Vagões eram adicionados no trem, porém não em Barra. Havia um tempo em que este trem transportava vagões da Transauto (LCD/PAR) com veículos da Fiat. O trem ficava hiper grande, os carros de passageiros ficavam posicionados na cauda do trem (existem fotos que retratam este fato), era muito difícil acertar estes nas plataformas de parada para embarque e desembarque de passageiros, pois não tínhamos rádio transmissor, como os dias de hoje, parávamos na maioria das vezes no achômetro... rsrsrssss... As plataformas das Estações, em sua maioria tinham "varejos", bares 24 horas, que serviam de tudo... rsrsrs... ahhhh!!!! as locomotivas que operavam com estes trens, normalmente eram as Canadenses, cheguei tracioná-los também com a locomotiva Biriba (FA1)."