O Fim do Trem Baiano
O Fim do Trem Baiano
Discurso proferido na Assembléia Legislativa de Minas Gerais em 07/09/1996
O Deputado XXX - Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, hoje, terça-feira, nesta tribuna, quero registrar a desolação do povo norte-mineiro. Hoje, após precisamente 70 anos de serviços ligando Minas à Bahia, encerra-se a trajetória do nosso histórico "trem baiano".
A desativação da linha Montes Claros-Monte Azul, efetivada no processo de privatização da RFFSA, deixa uma grande lacuna na vida dos norte-mineiros, que durante quase um século consolidaram sua economia, seus costumes, cultura e desenvolvimento no trajeto desse trem.
Estação de Janaúba, entre Montes Claros e Monte Azul. Foto de Tarcisio de Souza. Cortesia: Flavio Cavalcanti, do site VFCO - Informativo Centro Oeste.
Há que se considerar ainda que a condição das estradas e dos transportes no Norte de Minas ainda não é a ideal: cerca de 40% dos municípios não possuem estradas asfaltadas.
Nesse contexto, o trem que ligava Montes Claros ao interior possibilitava o escoamento da produção a um custo mais baixo para os pequenos produtores da região e para aqueles que buscavam os serviços mais especializados prestados pela cidade-pólo - Montes Claros. A sua desativação significa desesperança para os usuários e desemprego para os funcionários da Rede.
Queremos deixar registrado o protesto da região junto à RFFSA e ao Ministério dos Transportes.
Apelamos aos ilustres colegas desta Casa e ao Governo de Minas, que tanto tem se sensibilizado com as discrepâncias do desenvolvimento do Norte de Minas.
Apelamos para a criação de ações no sentido de gerar alternativas que evitem a extinção; ações que permitam integrar o transporte de cargas com o de passageiros, viabilizando economicamente a continuação do serviço.
Nossa região, aos poucos, se caracteriza como grande produtora de hortifrutigranjeiros irrigados, além da tradição industrial e agropecuária já existente. A interrupção desse transporte, que, além do seu valor histórico, é essencial à sobrevivência das populações carentes da região, extrapola os limites do administrativo e torna-se questão de caráter público.
Mais que um marco histórico, folclórico e cultural, o "trem baiano" é o elo de ligação entre o Norte e o Sul, entre o desenvolvimento e a esperança de se desenvolver, com a consolidação de uma economia forte que desponta no Norte de Minas.
O Deputado YYY (Em aparte) - Quero cumprimentar o Deputado XXX pelo brilhante pronunciamento que vem retratar, de forma fiel, o desespero que tomou conta dos milhares de funcionários da RFFSA. São mais de 3 mil desempregados. São pessoas que passaram toda a vida ou mais de 20 anos como manobristas ou funcionários burocráticos e que, agora, vêem-se desempregadas.
"Trem do Sertão" em Janaúba. Foto de Tarcisio de Souza. Cortesia: Flavio Cavalcanti, do site VFCO - Informativo Centro Oeste.
Na semana passada, alertávamos para os processos de privatização que estão sendo desenvolvidos no País. A privatização é importante, desde que traga benefícios para o Estado ou a União e desde que não atinja, de forma tão violenta e covarde, o trabalhador que deu o seu sangue pelo seu trabalho.
S. Exa. é testemunha da importância do trem para a região norte-mineira, principalmente para o transporte de passageiros. É um meio de locomoção barato que tem ajudado, ao longo dos últimos 70 anos, milhares e milhares de pessoas a comercializar o seu produto. A região de Monte Azul e Mato Verde ficou extremamente chocada e triste com a desativação do "trem baiano" de passageiros.
Estamos unidos a S. Exa. nesse ato de protesto. Em nome da sociedade civil daquela região, em meu nome e dos companheiros Deputados que conhecem o drama daquela região e daquelas pessoas que utilizaram o trem por 70 anos, fazemos o nosso protesto, juntamente com S. Exa. Temos de mostrar como a privatização, da forma como foi feita lá, lesa a população, a sociedade civil.
O Deputado XXX - Agradeço ao ilustre Deputado YYY, um batalhador nesta Casa. Vamos unir os dez Deputados do Norte de Minas para tentar modificar a situação.

Comentários
Os garimpeiros da estrada de ferro
OS GARIMPEIROS DA ESTRADA DE FERRO
Poeta Sebastião Santos Silva de Urandi - BA
Cerca de quarenta e cinco,
Todo mundo temia o mal
Que contaminou as nações;
Chamado de capital.
Exterminou muitos povos,
Segunda guerra mundial!
Brasil, também preocupou!
Tinha extenso litoral;
Poderia ser atacado
No seu mar territorial.
Pensou num outro caminho
Ligando o norte a Central.
Urandi lucrou com isso.
Foi também beneficiado;
A nova estrada de ferro,
Passou por aqui o traçado.
Trouxe muitos benefícios,
O lugar ficou adiantado.
O engenheiro foi Propércio,
Natural do município.
Traçou todas as picadas,
Executando o seu ofício.
Para evitar muitos túneis,
Planejou a curva do Sítio.
Um serviço perigoso,
Trabalhar com explosão!
Na abertura desses cortes,
Muitos perderam a mão.
Tinha queda de barreira,
Soterrou muito peão.
Foi cercada toda estrada,
Só com arame farpado.
Todinha de quatro fios,
Pra não passar nenhum gado,
E deixaram duas cancelas
No caminho transitado.
Urandi lotou de gente.
Chegava do mundo inteiro!
De doutor até operário,
Chamados de garimpeiros.
Urandi melhorou muito;
Circulou muito dinheiro!
O movimento era grande,
Parecia uma capital.
Gente pra cima e pra baixo,
Na zona urbana e rural.
Às vezes, tinha uma briga,
Riscava outro no punhal.
Faziam festa de luxo;
Todo tipo de lazer!
Fizeram uma lagoa,
Para desfrutar prazer.
Trouxeram também cinema;
Fizeram carro correr.
Houve uma grande tragédia!
No tempo da construção.
Morreram muitas pessoas!
Explodiu - se um caminhão.
Encontraram muita jóia
Ao lado do pontilhão.
Hugolino Rodrigues,
Dessa vez ele escapou.
Subiu nesse caminhão,
Mas pra casa retornou.
Morreu um rapaz que era noivo;
A aliança identificou.
Nossa cidade cresceu!
Deixou muita construção:
Casas de luxo e de turma,
Aquele grande galpão
Onde funcionou o colégio;
Só resta recordação.
Tudo que tinha vendia;
Às vezes, malandro tomava.
Fazia muita bagunça
Nas festas aonde chegava,
Mas tinha o Cabo Ribeiro,
Todo mundo respeitava.
Tinha cassino da sorte,
Badalado cabaré;
Muita confusão armada,
Por motivo de mulher.
Tinha gente perigosa.
Mas tinha gente de fé.
Chegaram primeiros crentes,
Também muitas prostitutas,
As famílias de doutores,
Muito sujeito matuta;
Até muito cangaceiro
Vinham fugidos da luta.
No tempo da construção,
Ninguém ficava solteiro;
Casavam todas as moças
Com rapazes garimpeiros.
Fizeram uma limpeza!
Oh! Santo casamenteiro!
Muitos chegaram aqui
Sonhando ganhar dinheiro.
Sentiam ter sido enganado,
Por algum dos empreiteiros;
Não tinha como voltar,
Passou a trabalhar de meeiro.
Gastaram mais de cinco anos,
Para essa estrada fazer,
Mas só em cinqüenta que o trem
Chegou e começou a correr.
Começaram a viajar
E por coisa pra vender.
O misto descia na sexta
E retornava no sábado.
Ele só ia até Monte Azul,
Onde ficava parado.
Nossa! A estação de Urandi,
Parecia um grande mercado.
Vendiam frutas e comida;
Café, bolo, água e cocada.
Quando era Maria Fumaça,
Vendiam a lenha cortada.
A viagem era sofrida,
Com a classe bagunçada.
Pessoal viajava de trem.
Quando era Maria Fumaça,
Empretava toda roupa,
Porque era quase de graça.
Queimava cabelo e roupa
E bebia água de cabaça.
E chegando à barragem,
Parava pra abastecer.
Estênio que era o bombeiro;
De água a máquina encher,
Por isso, recebeu o nome
De Estênio, por merecer.
Embarcava: mamona,
Ovo, galinha e gado.
Exportava: manganês,
Também dormente lavrado.
Chegava muito cimento,
Pra abastecer o mercado.
Muitos por aqui ficaram,
Adotaram o lugar.
Não voltaram mais pra casa;
Resolveram se casar,
Continuam aqui até hoje,
Para a história contar.