Metrô do DF em marcha lenta e precária
Notícias, Isabel Fleck, Correio Braziliense, 12/06/2006
[cf. Clipping do Macá]
- DISTRITO FEDERAL - Mais de R$ 1,6 bilhão investidos em 14 anos. Apesar do tempo e das verbas empregados, o metrô, com cinco anos de operação, ainda está longe de atender as necessidades dos 2 milhões de habitantes do Distrito Federal. Os 32km de linhas em funcionamento só ligam Asa Sul, Guará, Águas Claras, Taguatinga e Samambaia. Das 28 estações previstas no projeto original, apenas a metade funciona. Os 13 trens em operação não circulam depois das 20h e nos fins de semana. A tão sonhada integração entre metrô e linhas de ônibus deve sair só no próximo ano.
Além dos problemas para os usuários, o metrô do DF só opera no vermelho: o valor gasto em manutenção, publicidade e pagamento de funcionários é quase 17 vezes maior do que o valor arrecadado com bilheteria. Em 2005, o metrô gastou R$ 253 milhões e arrecadou apenas R$ 14,9 milhões. Isso significa uma despesa de R$ 21 milhões mensais contra R$ 1,24 milhões de bilheteria. Este ano, R$ 102 milhões já saíram dos cofres do governo para manter os trens circulando. A arrecadação, até maio, foi de R$ 3,1 milhões, de acordo com a ONG Contas Abertas. O déficit é só um dos sintomas que mostram que o metrô ainda precisa enfrentar um longo caminho até ser um meio de transporte relevante para o DF.
Hoje, 60 mil pessoas circulam por dia pelas estações. A maioria elogia a rapidez do transporte, mas não faltam reclamações quanto aos horários e trajetos. O dentista José Roberto Santos, 35 anos, é um deles. Ele e a mulher Camila, 32, adotaram o metrô há dois anos, como uma alternativa para fugir dos engarrafamentos na Estrada Parque Taguatinga (EPTG). Hoje, eles deixam um dos carros na estação Arniqueiras, em Águas Claras, e outro na estação 114 Sul.
“Chegamos na estação por volta das 7h30 e em 13 minutos estamos no Plano Piloto. No nosso caso, funciona bem, até porque voltamos cedo para casa”, afirma José Roberto, que trabalha no Brasília Shopping e precisa do carro para deixar os filhos Lara, 9, e Vitor, 7, na escola na Asa Norte. Mas o dentista sabe que o metrô ainda beneficia muito menos gente do que deveria. “Ele não funciona aos sábados e tem várias estações fechadas, como as da Asa Sul. Isso limita muito o uso”, avalia.
José Roberto não é o único a reclamar dos horários. A estudante Érica Negres Santos, 26, que vai de metrô para a faculdade, teve que juntar 10 colegas para voltar da aula, às 23h. Eles alugaram uma van para ir da 703 Sul até Águas Claras. “Tem pelo menos mais umas duas vans que fazem esse trajeto. Se o metrô funcionasse até mais tarde, não seria preciso ter mais este gasto”, reclama Érica.
A explicação para o limitado horário do metrô é a falta de funcionários para abrir mais um turno de trabalho. Segundo o assessor da diretoria de operação do Metrô, José Soares de Pádua, para o metrô circular até às 23h – horário previsto no projeto inicial – seriam necessários mais 400 empregados além dos 1,2 mil que compõem o quadro atual. “Os 400 funcionários que entraram em setembro substituíram o pessoal terceirizado. Agora precisamos equacionar recursos para um próximo concurso e para o treinamento”, detalha o assessor.
Estações - Outra grande reclamação dos passageiros é relacionada ao trajeto do metrô. As poucas cidades atendidas e o grande número de estações desativadas dificultam o acesso ao meio de transporte. Para pegar o metrô hoje, o instrutor de auto-escola Messias de Sousa, 42 anos, tem que ir de ônibus da Guariroba, onde mora, à estação Praça do Relógio, em Taguatinga. “Tenho que pagar duas passagens. Apesar de sair mais caro, ainda vale a pena pelo tempo que economizo”, avalia Messias, que não vê a hora de a estação da Guariroba ser inaugurada.
Ela faz parte das seis estações presentes nos 10 quilômetros de linha construídos em Ceilândia nos últimos dois anos. O novo trecho custou mais de R$ 100 milhões ao governo. Duas estações, a Centro Metropolitano e a Ceilândia Sul, serão inauguradas no fim do mês. Para as outras, não há previsão. Seis seis estações não operacionais do DF continuam fechadas ao público (veja mapa).
De acordo com Pádua, as seis estações da Asa Sul só precisam de acabamento externo e de passagens subterrâneas que dêem acesso às quadras 100 e 200. A do Guará depende da realocação dos fios de alta tensão que passam por cima dos trilhos. Já a estação Estrada Parque depende de uma demanda que ainda não existe. “Mas a prioridade são as estações de Ceilândia. Temos que buscar o passageiro onde ele está, para depois distribuir”, afirma Pádua.
Integração - A demora no projeto de integração do metrô com as linhas de ônibus também limitam e muito o uso do veículo. De acordo com o secretário de Transportes do DF, Mauro Cateb, a primeira parte da integração compreende a instalação de catracas eletrônicas nos ônibus. “Até o final de junho, as operadoras de ônibus devem apresentar à Secretaria o contrato com a empresa responsável pela instalação do sistema”, afirma. Se o contrato atender às condições colocadas pelo governo para funcionar junto ao metrô, as catracas começarão a ser instaladas em agosto. “Acreditamos que até o final do ano toda a bilhetagem eletrônica já tenha sido instalada”, avalia Cateb.
A segunda parte da integração, que une os sistemas de ônibus e metrô, só deve começar mesmo em 2007. “Vamos ter muito trabalho, principalmente na parte de tecnologia e fiscalização eletrônica. Mas se tudo correr bem, podemos até iniciar a fase de testes este ano”, arrisca o secretário de Transportes. A verba para a segunda etapa do projeto já está prevista no projeto Brasília Integrada, que terá um investimento de US$ 246 milhões. Destes, US$ 161 milhões virão do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e US$ 85 milhões de contrapartida do GDF.

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