De volta à Terra

Choque de trens mata dezesseis no Rio e devolve à realidade o debate sobre transportes urbanos
Nunca se viu tanto blablablá sobre transportes urbanos. Em São Paulo houve até uma proposta de trem voador, que ocupou durante semanas o centro do debate eleitoral. Foi necessária uma tragédia para recolocar o assunto nos trilhos da realidade. O acidente ocorreu na manhã de quarta-feira, dia 18, na Baixada Fluminense. Um trem da Rede Ferroviária Federal, carregado com bobinas de cabo de aço, descia a Serra das Araras. Sem conseguir controlar a composição, que voava sobre os trilhos a 100 quilômetros por hora, os maquinistas avisaram por rádio a Estação de Barra do Piraí, de onde tinham saído. Logo depois, o cargueiro passou desembestado na frente de um posto de observação e avançou um sinal vermelho. Eram 8h12. A 4 quilômetros dali, o trem de passageiros Barrinha, que saíra de Barra do Piraí levando noventa trabalhadores, estava parado num semáforo. Só faltavam 700 metros para chegar à Estação de Japeri. Às 8h16, os dois trens se chocaram, matando dezesseis pessoase ferindo mais de sessenta.
A tragédia se desenrolou num intervalo de quatro minutos. O funcionário do posto de observação Francisco José Ferreira telefonou para o controle de tráfego de Japeri e alertou sobre a iminência de um choque entre os dois trens. "O cargueiro está sem freio, está sem freio! Vai bater no Barrinha, vai bater!", gritou, desesperado. Por rádio, o controlador conseguiu avisar os maquinistas do Expresso Barrinha, Jaldimar da Silva e Pedro Antônio Vieira, do perigo iminente. Os maquinistas tentaram uma manobra para tirar o trem da rota do cargueiro. Não conseguiram. Enquanto isso, os maquinistas do cargueiro, Daniel Rodrigues e Cláudio Guimarães, tentavam de tudo para parar a composição: usaram o freio de emergência e subiram no primeiro vagão para acionar o freio manual. Nada. O maquinista Jaldimar, do Barrinha, desceu para mandar todo mundo abandonar os vagões. Não deu tempo. Alguns passageiros ainda conseguiram pular para os trilhos. Mas nem todos tiveram sorte -- alguns foram esmagados por um dos vagões, que descarrilou.
Herança maldita — O cargueiro, que tinha saído de Juiz de Fora, parou em Barra do Piraí para ser vistoriado, mas a inspeção foi feita em apenas cinco minutos. Os investimentos na rede despencaram nos últimos quinze anos, sendo praticamente zerados no ano passado. No final de 1994, a RFF transferiu ao governo do Estado do Rio quase toda a operação dos trens de subúrbio. Na semana passada, o governador Marcello Alencar reclamou a degradação dos 264 quilômetros de via e 244 trens que recebeu do governo federal. "Foi uma herança maldita", queixou-se.
Virgínie Leite | revista Veja, 1996-09-25 | Clipping: Márcio Hipólito

Comentários
Comentar