Uberlândia quase foi a capital do País em 1946

Rondon Pacheco defendia que o Triângulo
Mineiro fosse a área mais apropriada para
sediar a capital do país
Na disputa com Goiás, o Triângulo Mineiro perdeu por apenas seis votos em 1946
Em 12 de setembro de 1946, no Palácio Tiradentes, praça XV, Centro do Rio de Janeiro, sede do Congresso e da Assembleia Nacional Constituinte, uma votação decidida por pequena margem de votos poderia ter mudado o curso da história brasileira e, em especial, a de Uberlândia.
Naquele dia, a emenda constitucional que propunha a transferência da capital federal para o Triângulo Mineiro defendida pelo engenheiro Lucas Lopes e pela bancada mineira liderada por Juscelino Kubitschek (JK), Israel Pinheiro e o ex-governador das Gerais, Benedito Valadares, fora derrotada pelo placar de 108 a 102.
Pouco difundida e contada em raros livros, a história da votação que por pouco não colocou Uberlândia no centro do poder decisório brasileiro, ao menos temporariamente, já que a localização exata do Distrito Federal no Triângulo Mineiro não ficava explícita na emenda constitucional, continua bem guardada na memória de pessoas como o ex-governador e ex-ministro Rondon Pacheco.
Durante as comemorações dos seus 90 anos, em 31 de julho, o político uberlandense que por mais vezes foi congressista (seis mandatos, sendo cinco consecutivos), concedeu entrevista exclusiva ao CORREIO de Uberlândia, relembrando esta passagem histórica, publicada agora na véspera da comemoração dos 121 anos de emancipação política uberlandense.
“Nós achávamos que a solução de Uberlândia fosse mais econômica, porque já estava tudo pronto. Já tínhamos a ferrovia (Mogiana), tínhamos rodovias por terra, tínhamos um sistema de água incomparável, rios vindos da região de Araxá, todos potáveis, como o rio Claro”, afirmou.
Segundo ele, a opinião de grandes geólogos e grandes engenheiros, como Lucas Lopes, indicava que fosse nessa região a localização da capital. “Mas perdemos por seis votos”, afirmou Rondon Pacheco, que em 1946 advogava em Belo Horizonte, principalmente para clientes uberlandenses.
Ele seria eleito deputado estadual constituinte no ano seguinte. No entanto, Rondon Pacheco já era uma liderança política e jurídica estadual em ascendência naquele período, sendo um dos signatários em 1943 do Manifesto dos Mineiros, carta aberta, publicada contra a ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas.
Quadrilátero de Cruls foi delimitado
Na votação da Assembleia Nacional Constituinte em 1946, três frentes parlamentares concorriam com a emenda defendida pela maioria da bancada mineira, que propunha o Triângulo Mineiro como o melhor local para a nova capital.
A primeira corrente era formada principalmente pelos deputados e senadores do Rio de Janeiro, que não queriam ver a capital ser transferida para o interior.
A segunda, capitaneada pelo deputado mineiro Arthur Bernardes, defendia a localização preestabelecida no dispositivo Constitucional de 1891, no local definido como o Quadrilátero de Cruls.
Já o constituinte Café Filho queria que a capital fosse transferida para a recém-construída cidade de Goiânia. “A votação na Assembleia Constituinte foi muito disputada. A maioria pendia mais por aquela área em Goiás. Achavam que lá ocupava melhor o território nacional”, afirmou Rondon Pacheco.
A decisão imperativa dos constituintes foi respeitada, mas a localização da nova capital continuava sem exatidão quando a Constituição de 1946 foi promulgada, em 18 de setembro. A única referência era o Planalto Central.
A decisão definitiva só sairia anos depois, em 19 de setembro de 1956, após uma expedição formada por cientistas e chefiada pelo general Djalma Coelho Poli desbravar o sertão mineiro e goiano em busca do melhor local para cravar a nova capital em uma área de aproximadamente 14,4 mil quilômetros quadrados já pré-definida desde a Constituição de 1891, que ficou conhecida como o Quadrilátero de Cruls.
O nome é uma referência ao astrônomo e geógrafo belga radicado no Brasil, Louis Ferdinand Cruls, que coordenou a missão exploratória do Planalto Central em 1892, durante o governo do presidente Floriano Peixoto.
Interiorização era defendida desde o século 17
A história da implantação da capital brasileira no interior precede em quase três séculos o início da construção de Brasília em 1956, durante o governo de Juscelino Kubitschek.
No século 17, a interiorização era fundamentada por membros da corte portuguesa no Brasil, como o marquês de Pombal.
Os inconfidentes mineiros, em 1789, já falavam sobre isso e chegaram a incluir a transferência da capital para o interior como um dos objetivos do movimento. Mais uma vez a escolha frustrada recaía sobre Minas Gerais: São João Del Rei.
No século seguinte, o patriarca da Independência, José Bonifácio de Andrada e Silva, defendia a transferência da capital também para Minas Gerais, mais precisamente para a região de Paracatu do Príncipe (MG).
O nome seria Brasília ou Petrópole. A corrente mudancista ganhou força no século 19 com um fato pitoresco. Um sonho/visão de Dom Bosco, fundador da ordem dos Salesianos e considerado santo pela Igreja Católica, dizia que a terra prometida ficaria entre os paralelos 15° e 20º.
A referência ao Santo italiano seria marcante na história de Brasília. No último dia de 1956, antes do início da construção do Plano Piloto, a Ermida Dom Bosco foi concluída às margens do Lago Paranoá, exatamente na passagem do paralelo de 15º.
O que dizia o CORREIO na época

Exemplar do Jornal Correio destacou
a luta dos mineiros pela capital
Na edição do dia 20 de maio de 1946, o CORREIO de Uberlândia abordou pela primeira vez a possibilidade da mudança da capital para o Triângulo Mineiro. “Uma tese defendida pelo sr. Lucas Lopes – Pontal, no Triângulo Mineiro, indicado como ponto preferível”, mencionava a linha fina da manchete. A proposta do engenheiro foi defendida em editoriais publicados praticamente todos os dias até a votação na Assembleia Constituinte.
Os argumentos utilizados pelos deputados constituintes JK e Israel Pinheiro para defender a tese triangulina, como o potencial de água potável da região, eram reproduzidos com frequência nas páginas do CORREIO.
“Meu pai (Israel Pinheiro) solicitou ao Dutra que fizesse a mudança da capital. Dutra disse que se fosse para um lugar que tivesse a civilização, apoiaria, porque se fosse lá para o interior de Goiás (Quadrilátero de Cruls), o País não teria condição de mudar. Por isso, a decisão da proposta de fixar no Triângulo Mineiro a capital”, afirmou Israel Pinheiro Filho, que é ex-deputado e filho de Israel Pinheiro.
As vantagens da região
Das quatro ruas que levam nomes de engenheiros em Uberlândia, nenhuma delas homenageia o engenheiro Lucas Lopes. Ele, no entanto, na década de 40 foi um dos visionários do desenvolvimento que a cidade e a região do Triângulo Mineiro teriam nos anos que se seguiriam. Desenvolvimento baseado na tríade que também se concretizaria adiante: localização geográfica privilegiada, potencial de multimodalidade de transportes e geração de energia.
Nascido em Ouro Preto, o engenheiro Lucas Lopes havia sido secretário de Viação do governo mineiro de Benedito Valadares. Ele foi um dos principais defensores da interiorização da capital e da mudança do Distrito Federal para o Triângulo Mineiro, em uma área que acabou ficando indefinida, mas delimitada na mesopotâmia dos rios Grande e Paranaíba.
Segundo estudos abordando os mais variados elementos, como clima, potencial hidrográfico, entroncamento rodoferroviário no eixo leste/oeste e norte/sul do País, o engenheiro demonstrava a maior viabilidade da região do Triângulo Mineiro para a transferência da capital em detrimento do sertão de Goiás, onde estava delimitado o quadrilátero de Cruls.
O estudo de Lucas Lopes resultou na publicação do livro “Memória sobre a Mudança do Distrito Federal”. “Foi ele quem levantou a mudança da capital, isso estava esquecido. O JK, então, pediu para colocar nos anais do Congresso esse estudo que propunha a localização da nova capital federal no Triângulo Mineiro”, afirmou o engenheiro civil Rodrigo Lopes, filho de Lucas Lopes.
“Papai analisava o relatório Cruls e demonstra as vantagens de fazer a capital na ponta do Triângulo Mineiro. Montou-se a comissão para analisar a mudança da capital, cujo presidente era Israel Pinheiro. Essa comissão aceitou fazer a mudança da capital, decidiu até dotação orçamentária, mas não escolheu o local”, afirmou Rodrigo Lopes, que é genro do ex-presidente JK e foi secretário de governo no Rio de Janeiro.
Em novembro de 46 foi montada a comissão Poli Coelho em referência ao nome do general Djalma Poli Coelho, que a coordenou. “Quem assumiu a posição de ir mais para o Norte, em vez de ficar no Sudeste, foi o Exército. Eles queriam interiorizar ainda mais a Capital. No Triângulo Mineiro continuaríamos na região Sudeste. O general Poli era muito autoritário, papai teve brigas homéricas com ele, porque ele não deixava votar. Já era meio a Revolução de 1964”, afirmou Rodrigo Lopes, que é autor do livro “Sonho e Razão: Lucas Lopes, o planejador de JK” (Editora Arx).
30 Ago. 2009 (data presumida)
via Skyscrapercity
http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=946734
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