Tragédia soterrou a Fazenda

Destruição da Fazenda dos Ingleses pelo "tsunami" de água, terra, paus e pedras em 1967

Trecho do livro “Fazenda dos Ingleses”, onde Marino Garrido reconta a catástrofe de 1967 e as consequências. Encerrou-se aí a experiência de cultivo de frutas tropicais em Caraguatatuba, para atender ao mercado britânico.

Estudando a fundo o fenômeno ocorrido em 17/18 de Março de 1967, envolvendo, de maneira terrível, para dizer o mínimo, extensa área do município de Caraguatatuba, com repercussão internacional, inclusive através da BBC de Londres, assim se expressa Olga Cruz:

“Com referência à catástrofe de 1967, o fenômeno foi de tão grande amplitude que seria impossível atribuí-lo apenas aos cortes de estradas ou aos desmatamentos e mesmo dar-lhes maior importância. A amplitude dos acontecimentos foi de âmbito muito superior ao de uma pequena faixa de estrada nas descidas das escarpas.

Foi um fenômeno ‘areolar’ [aureolar?] com maior concentração numa área de aproximadamente 180 km², na maior parte recoberta por uma reserva florestal, enquanto a faixa da estrada abrange apenas algumas dezenas de metros de largura.

Nos altos das escarpas, o manto de alteração é o grande fornecedor do material arrastado pelas enxurradas, enquanto na base dos esporões e nos patamares poderá haver maior influência dos materiais depositados anteriormente, que parecem não depender de determinadas situações paleo-climáticas.

A área foi atingida no verão de 1966/1967 por fenômenos de alta quantidade e intensidade pluviométrica, culminando com as chuvas de 18 de março de 1967 que, em poucas horas, acarretaram centenas de escorregamentos nas vertentes escarpadas de parte das serras de Caraguatatuba e Massaguaçu”.

Mais adiante:

“O morro do Jaraguá e seus baixos esporões, que fecham os alvéolos do vale do Santo Antônio em frente às escarpas da Serra de Caraguatatuba, foram duramente atingidos pelos escorregamentos.

O baixo vale do rio Mantegueira transformou-se num ‘rio de pedras’, formando vastos taludes de detritos em poucas horas, com blocos de mais de 3 m de eixo maior.

Os materiais desceram em corridas de lama, alargaram o rio (Santo Antônio), formaram na sua foz um pequeno delta e tingiram o mar de amarelo durante muitos meses. Os troncos e outros detritos vegetais mais leves forraram as praias”.

A Fazenda São Sebastião não podeira escapar às consequências de tudo isso, pois boa parte dela ocupava a área atingida.

O gado lá existente, talvez por instinto, refugiou-se nos morros, naquelas horas dramáticas, que pareciam anunciar o fim do mundo...

Porém, algumas reses foram sacrificadas pela avalanche terrível.

Dezenas de famílias tiveram que abrigar-se nos vagões da ferrovia, por quase duas semanas, pois determinadas áreas da Fazenda transformaram-se em um vasto lamaçal praticamente coberto de troncos de árvores rodadas da Serra, e de blocos enormes de pedras.

Não faltou quem afirmasse ter sido um castigo do céu aquela imensa tragédia, na qual não se sabe ao certo, até hoje, quantas pessoas pereceram, havendo opiniões de que mais de 400 teriam sido sepultadas sob a espessa camada de lama e detritos, enquanto outras foram levadas para o mar, não se contando os prejuízos materiais decorrentes do fenômeno.

No respeitante à fazenda, registraremos, em sua linguagem peculiar, o que escrevem Mr. H. R. Brown, aquele inglês caraguatatubense a que já nos referimos:

“A catástrofe de 18/3/67 estragou completamente 50% do Fazenda, cobrindo bananal e linhas férreas com 2 metros de lama a madeira. Quase os rios e canais foi entupido pela jangada e terra. Na época nós calculamos o custo para renovação da fazenda (incluindo 2 anos sem produção) em £ 500.000” (sic).

Na verdade, a catástrofe não teria sido, como não foi, o pretexto único para a desativação daquela importantíssima empresa. Há cerca de três anos, já era pensamento do grupo inglês, responsável por ela, promover-lhe o fechamento, porquanto o mercado europeu de frutas, que a Fazenda ajudava a alimentar, estava em declínio, e isso lhe acarretava sérios prejuízos.

Mas, para evitar um impacto social (o desemprego imediato de quase mil famílias), a desativação da empresa far-se-ia gradualmente, ou seja, por seções (Camburu, depois Gentio, depois Cachetal, depois Sítio Velho...), uma de cada vez e a espaços razoáveis pagando-se todos os direitos dos seus empregados.

A catástrofe de 1967, entretanto, não fez senão apressar tudo.

Ainda assim, pensou-se em tentar uma renovação dos bananais destruídos, mas como esclareceu Mr. Brown, £ 500.000 era quantia assaz elevada para uma experiência de recomposição da cultura de bananas.

Nesse cálculo incluía-se um prazo de 2 anos para a recuperação dos prejuízos.

Então, tornou-se absolutamente inevitável o fechamento da empresa, o que se efetivou dentro de planos elaborados nos quais se incluía a mudança de parte do material da Fazenda para um dos países da América Central onde ofereceram, ao grupo inglês responsável por aquela, terras à vontade – e graciosamente – para a continuação da obra iniciada em Caraguatatuba.

Outra parte foi vendida ou redistribuída aos vários setores de atividade do grupo inglês em nosso país, principalmente em São Paulo.

Todos os diretos dos trabalhadores foram religiosamente pagos e, em muitos casos até com liberalidades, conforme numerosos testemunhos.

A propósito, damos, em apêndice, esclarecimentos sobre o assunto.

É de justiça registrar, neste ensejo, a absoluta lisura com que a Fazenda se houve, até o último instante de sua permanência em Caraguatatuba, no trato de seus negócios. Como exemplo: suas atividades estiveram suspensas durante três meses (aproximadamente), para as providências relativas à desativação total entre elas as que diziam respeito à elaboração dos cálculos sobre os direitos salariais de todos os empregados, na conformidade da legislação em vigor.

É sabido que foi reconhecida, por decreto municipal,  situação de calamidade pública, em Caraguatatuba, em decorrência da hecatombe de 1967. Apesar disso os salários dos trabalhadores, durante algum tempo, continuaram sendo pagos. Após, a Fazenda concedeu “férias coletivas”, num período de quatro meses aos seus empregados, pagando-lhes salários integrais, razão por que não sofreram prejuízos. E mais: a maioria dos trabalhadores recebeu, a um preço meramente simbólico, material para a construção de suas casas, em outros locais do município.

Assim, de um momento para outro, tomou corpo o bairro do Tinga, para citar apenas esse, pois nele se estabeleceram numerosas famílias de ex-operários da Fazenda.

Em muitos casos, até o transporte do material vendido a preço ínfimo (apenas para justificar sua saída), era fornecido pela empresa agora em liquidação. Não é à toa, portanto, que ainda hoje se houve, de ex-empregados da popular Fazenda dos Ingleses, as melhores referências a ela, não apenas porque lá viviam vida trabalhosa, mas alegre e tranquila, como, e principalmente, porque eram tratados com liberdade e compreensão, justiça e dignidade.

De nosso registro particular, destacamos o seguinte:

“À medida que os empregados iam recebendo as respectivas indenizações, se lhes perguntava para onde se dirigiam. Se o destino era alguma das cidades vizinhas, ou do vale do Paraíba, a Fazenda providenciava o transporte de suas mudanças ou dava-lhes a importância correspondente, em dinheiro. Para os que desejavam residir em Caraguatatuba, e já possuíam ou iam comprar um terreno, a Fazenda vendia-lhes a casa em que residiam como empregados, fazendo-o por um preço que talvez nem cobrisse o custo do transporte do material demolido até a saída dos limites daquelas terras”.

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