Revitalizada, litorina suspira de novo
Depois de reinar por décadas na missão de levar o dinheiro do pagamento dos ferroviários de Porto Velho a Guajará-Mirim, a litorina da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM) foi desativada junto com a linha férrea, em 1973. Foram quase 40 anos adormecida até ser reinaugurada na sexta-feira à tarde junto ao complexo cultural à beira do rio Madeira. A reforma durou 12 meses e foi patrocinada pela Santo Antônio Energia, dentro da parceria de investimentos no patrimônio cultural da Capital.
Afastado do trabalho desde o fechamento das linhas, Paulo Ramos, hoje com 65 anos, foi guarda-freios, brequista e chegou a viajar como chefe do trem de carga que levava operários para as obras. Começou aos 13 anos, em 1959. No ano passado, ele foi um dos membros contratados da cooperativa que reúne ex-ferroviários para trabalhar na reforma da litorina, K4 e cegonha, outros dois veículos menores que também fazem parte dessa história.
A Santo Antônio Energia investiu R$ 16,5 mil para reformar os três veículos, mas foi mesmo a litorina que deu mais trabalho. “O motor foi totalmente refeito, além da recuperação da pintura original e preparação dos trilhos, que também estavam em mau estado”, apontou a analista sócio-ambiental da empresa, Lia Santos.
De volta ao lugar onde trabalhou por duas décadas, Paulo Ramos sonha em ver o complexo todo funcionando novamente, ainda que seja para receber turistas e visitantes nos galpões que seguem abandonados junto aos trilhos. “A gente viajava com tanto gosto. Isso tudo aqui funcionava, os tornos, as sirenes. É triste ver tudo abandonado desse jeito”, lamentou.
Cercado por colegas da época de ouro da estrada de ferro que ajudaram na reforma da litorina, Paulo revela que gostaria de ver o equipamento fazendo o passeio de 7,3km da sede até a antiga igreja Santo Antônio, primeiro prédio em Rondônia a ser tombado como patrimônio cultural do Estado, em 1986. Um trecho da estrada, no entanto, está interrompido desde que uma forte chuva destruiu parte dos trilhos. Por causa disso, na sua reinauguração, a litorina só pode viajar alguns metros.
Reforma do complexo tem pelo menos R$ 20 milhões
O coordenador de relações institucionais da Santo Antônio, José Carlos Sá, lembra que já existem cerca de R$ 20 milhões destinados à reforma geral do complexo, incluindo a recuperação dos trilhos que levarão a litorina à velha igreja, onde do mirante se pode enxergar as obras da hidrelétrica. “São dois símbolos da cidade separados por 100 anos. O marco inicial de Porto Velho, sua primeira igreja, e a modernidade representada pela barragem”, observou José Carlos.
O superintendente de Turismo do Estado, Júlio Olivar, acompanhou a reinauguração da litorina e lembrou que 40 anos após a desativação da estrada de ferro o local continua atraindo a atenção dos visitantes, curiosos com a história que tudo isso representa. “Mesmo quem chega e não entende do que se trata se deslumbra com a beleza escondida entre os trilhos e o rio”, afirmou.
Mesmo a cegonha, movida por uma manivela manual, chamou a atenção de um grupo de 15 adolescentes que matavam aula na sexta-feira à tarde. Eles aproveitaram a desatenção dos vigilantes e subiram para andar alguns metros com o equipamento.
CINEMA
Depois de brilhar no cinema e na TV, como no seriado Mad Maria, da Rede Globo, a história da estrada de ferro, que deu origem à Capital de Rondônia, se prepara para brilhar no cinema, num longa-metragem que está sendo produzido por uma emissora de Mato Grosso. Desta vez, a litorina estará mais viva que nunca para ajudar a contar sua própria história.
Diário da Amazônia | 04/06/2011
http://www.diariodaamazonia.com.br/diariodaamazonia/index2.php?sec=News&id=10943

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