Quarup - (trechos)

* [Datado pelo autor, no final do texto: "Março de 1965 - Setembro de 1966". O personagem Villar é Bernardo Sayão]

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A primeira impressão que causou Rolando Vilar em Nando foi sobretudo a do reflexo de Vilar em Otávio e Fontoura. Surgia Vilar como um herói com físico de herói e se punha a agir como herói. E alterava os outros dois, que pareciam disputá-lo. Ou querer controlá-lo. Antes de ir ao Posto, antes de falar com as pessoas, antes mesmo de desejar bom-dia a Lídia ou dizer muito prazer a Nando, Vilar começou a dar instruções aos seus trabalhadores.

— Olha, Eleutério, ao contrário do que a gente imaginava é melhor ampliar o campo em profundidade na ponta norte. Temos bem uns cem metros desse carrascal a capinar e limpar com ancinho mas nos livramos daquele cerrado que daria um trabalhão dos diabos... Você, Vanderlei, ataca a buraqueira. Sua turma sai do cerrado para aumentar também o campo o mais possível na parte sul mas sem tocar nas árvores maiores. Depois vem limpando tudo, de modo que seu grupo e o do Eleutério estejam disponíveis para aplainar a parte que o Eleutério vai desbastar de verdade. Bom, minha gente, mãos à obra. Mas onde é que você está indo, Eleutério?

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— Estou indo no mato, seu Vilar.

— Os outros também hão de querer fazer pipi, Vilar — disse Otávio [veio no mesmo avião ou aviões que Vilar e a turma que irá limpar, aumentar e melhorar o campo. Lídia havia chegado dias antes]. — Você não acha que os homens deviam ir até ao Posto, primeiro? Depois começam o trabalho, que diabo.

Vilar riu.

— Eleutério — disse Vilar — Vanderlei, e vocês todos, minha gente. Vamos largar as trouxas no Posto, cada um na sua rede. Depois, trabalho.

Só agora é que Vilar apertou sorrindo a mão de Nando e abraçou Lídia fraternalmente.

— Não brinca não, Otávio — disse Vilar. — Se o Getúlio resolve o negócio do Parque tudo vai melhorar por aqui. Você sabe, esses grileiros estão ficando assanhados que daqui a pouco eu tenho que largar a minha Transbrasiliana. Eles provam que são proprietários do Planalto Central Brasileiro.

— Estão representando o seu papel — disse Otávio — numa sociedade que parece franquear uma total exploração de todos por todos.

— É, mas não vai assim não — disse Vilar. — Tinha graça se a gente acabasse pagando pela desapropriação de terras que ainda não foram sequer pisadas por sola de sapato de homem civilizado. Sem-vergonhice assim também é demais! Fontoura, meu querido.

Fontoura vinha se aproximando.

— Vocês chegam a ficam aí conversando, em lugar de virem falar com a gente? — disse Fontoura, dirigindo-se sobretudo a Vilar.

— Não banca o dono de casa sestroso — disse Vilar abraçando-o. — Você me chamou para cuidar do campo de pouso. Devia ter vindo me esperar no campo de pouso.

— Não — disse o Fontoura — você sabe que eu não tenho nada dessas besteiras. Mas também gosto de saber das novidades, que diabo.

Otávio passou a mão no ombro de Vilar, de certa forma como se o protegesse do mau humor de Fontoura.

— No momento — disse Otávio — são as melhores possíveis e imagináveis. A situação política vai tão mal que cada vez se patenteia mais a conveniência do Presidente parecer alheio a ela e entregue a obra de Governo mais sólida e séria. Depois tudo voltará a ser como dantes, mas uma visita aos índios e ao centro do Brasil parece ser o que o médico receitou para a crise do momento.

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— É bom ver você, seu bicho do mato — disse Vilar olhando para Fontoura com um sorriso. — E estamos os dois de parabéns, com a visita do Presidente. Só que você não está muito com cara disto.

Antes que o Fontoura pudesse protestar ou dar demonstrações de irritação ainda maior tentando provar que não estava nada irritado, ao contrário, Vilar partiu de Otávio para ele e foi andando ao seu lado, rumo à casa do Posto. Otávio deu o braço a Lídia.

— Que tal os famosos índios? — disse Otávio a Nando.

— Ah, você não sabe a importância que terão sempre para mim estes primeiros dias aqui no Xingu. Estou me sentindo feito um disco de cera numa gravação, sei lá.

Guardando tudo nas ranhuras — disse Otávio.

Adiante deles, no estradão, Vilar, alto e atlético, gesticulando ao lado da figurinha nervosa do Fontoura parecia um jequitibá estendendo galhos a uma desgrenhada palmeira de barranca de rio. Quando o grupo de Nando, Otávio e Lídia se acercou, já próximos todos do Posto, Vilar dizia:

— Não tenho a mínima idéia. Pensei que você soubesse. Afinal de contas você estava no Rio outro dia.

— Bem — disse Fontoura — o importante é que ele venha. Me importa lá com quem.

— Vocês estão falando no Ministro Gouveia, não é? — disse Otávio. O que me espanta é que a notícia que recebemos não falava na vinda de Ramiro com o Ministro. O Ministro viria sozinho, com a tal secretária, depois é que viria o Ramiro, também com a secretária.

— Vanda — disse Lídia.

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— Pois é — disse Vilar — como se o Ministro viesse preparar o terreno para Dr. Ramiro.

— E quem será a secretária do Gouveia? — disse Lídia.

— Bem — disse Fontoura — a verdade é que tanto o Ministro como Ramiro preparam o terreno para o Presidente. Isso é que interessa.

— Pelo jeito sigiloso desta primeira viagem do Ministro, é fora de dúvida que traz instruções do Getúlio, não? — disse Vilar.

— Talvez traga apenas a secretária — disse Otávio dando de ombros.

— Segundo minha mulher — riu Vilar — ele vem simplesmente me demitir antes que chegue a Presidente da República.

— Bem — disse Fontoura — aí existe menos temor do que esperança da Hilda.

— Coitada da Hilda — disse Lídia — eu bem compreendo como deve estar cansada desta vida de mato.

— Quem casa com mateiro deve saber que vida vai levar — disse Vilar.

— Hilda casou — disse Lídia — com um jovem desportista que não sabia o que ia fazer na vida e que só arranjou um emprego no Ministério da Agricultura para poder casar com a dita Hilda.

— É verdade, pura verdade — riu Vilar. — Eu já tinha esquecido. Minha vinda para o mato é que acordou o mateiro.

Já estavam sentados na casa do Posto, rodeados de índios.

— Pelo menos colégio para as crianças a Hilda já tem na Colônia Agrícola de Ceres — disse Otávio. — Vilar fez o colégio em lugar do tal chalé suíço que o Ministério mandou ele construir para hóspedes. Isto vai ter que ser explicado diretamente ao Ministro Gouveia.

— Mais um processo administrativo — disse Vilar. — Mas vocês não acham uma loucura gastar centenas de contos fazendo uma espécie de hotel na Colônia e outras centenas mantendo o hotel quando os colonos não têm escola para as crianças? Vão para o diabo que os carregue. Fiz a escola e contratei professor. Danem-se. E você vai ficar por aqui, Padre?

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— Vou — disse Nando. — Espero pegar a loucura do mato, que vocês todos pegam.

— Eu construí a igreja também, mas não tenho padre ainda.

— Pois quando quiser mande me apanhar aqui que vou dizer missa para os seus colonos.

— Mas lá tem de usar batina — disse Vilar. — Senão ninguém acredita na missa. Eu vou tocar essa reconstrução e ampliação do campo de pouso a galope, e volto à Colônia Agrícola. Se quiser vir benzer a minha igreja eu lhe mando de volta de avião.

— Não — disse Fontoura — você não vai me tirar ninguém daqui antes do quarup. Padre Nando, Otávio, Lídia, até o Ministro se eu pegar ele de jeito vão ajudar na pesca. Senão esses índios convidam os mil índios do Xingu e quando chegarem aqui não tem comida para cem.

— Está bom — disse Vilar — primeiro enterremos o tuxaua. Quem é mesmo ele?

— Uranaco — disse Fontoura — pai de Canato.

— Mas são uns mandriões, esses teus índios — disse Vilar. — Nem para dar de comer aos convidados conseguem trabalhar feito gente.

Fontoura emburrou.

— Quando eles tinham as terras férteis de outrora davam seus quarups com facilidade. Depois de séculos de exploração e de roubo dos civilizados precisam da nossa ajuda para recuperarem os hábitos e a alegria de outrora. Nem tudo é fazer cidade e abrir estrada.

— Eu não veria mal nenhum em botar latagões como Canato e Sariruá inclusive no trabalho de estradas — disse Vilar. — Eles também são brasileiros e devem ajudar o Brasil a crescer.

— Não são merda nenhuma de brasileiro — disse Fontoura — e não têm de ajudar merda nenhuma de Brasil a crescer. Nós é que devemos a eles e não o contrário. Vejo com a maior consternação que você ainda não entendeu nada do Parque.

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— Já, já — disse Vilar — já entendi, mas vivo lutando com falta de gente para fazer a Transbrasiliana e me dá pena ver tanto índio dobrado sem poder pegar numa picareta.

— Para trabalho escravo não tenho índio não — disse Fontoura. — Bem, vou trabalhar.

Fontoura foi andando em direção à porta, estranho e magro.

— Fontoura — disse Vilar — você sabe que essa nossa briga é velha e que você ganhou há muito tempo. Estou só implicando com você.

Mas Fontoura não quis ouvir nada e Nando teve a impressão de uma reedição de encontros Montoya e Cataldino contra Fernão Dias e Manuel Preto, só que o bandeirante se civilizara e o “jesuíta” era agora tão trágico quanto o índio. Quando pouco mais tarde Nando saiu com Vilar e Otávio, Fontoura estava entre os índios, no terreiro fronteiro às malocas, ao lado de Canato que conduzia uma reunião. Todos os índios fumavam charutos de palha e o pajé fumava um charutão. Canato falava, falava e falava à roda de fumantes. Exaltava a memória de Uranaco, seu pai, capitão da tribo, e acentuava a importância do quarup próximo. Que todos pescassem matrinchã, tambaqui, pacu, que colhessem muito milho e mandioca, que se preparassem para o grande moitará, que aprontassem as flechas do javari, que os atletas se exercitassem na huka-huka. Quando Canato interrompeu sua longa tirada falaram Iró e depois Apucaiaca, todos fumando gravemente e levando a sério a reunião ministerial. Mas era Fontoura ao lado de Canato que parecia fornecer a autoridade e garantir os planos de pescar peixe em massa e de matar em massa as araras e os gaviões que dariam pena para os adornos.

— Fontoura ensinando os índios a se manterem selvagens — disse Otávio quando já haviam se afastado em direção ao campo.

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— Admirável a obra dele — disse Nando. — É crime deixar morrer uma cultura humana. E uma reserva de pureza como esta.

— Condenados sem remissão — disse Otávio. — Adoecem por qualquer coisa mas odeiam os doentes. As índias todas conhecem ervas que fazem abordar. Não se iluda não, Padre, na reserva da pureza já existem os germes impuros. E mesmo para salvar os índios como bichos ornamentais e como objeto de estudos para os Smithsonian Institutes é preciso antes salvar o Brasil. Inútil querer preservar um filete de água pura num cano de esgoto.

— Mas tudo tem de ser feito ao mesmo tempo — disse Nando.

— Existem trabalhos centrais, vitais — disse Otávio.

— A Revolução — suspirou Vilar sabendo o que vinha.

— Claro que a Revolução e ela só poderia ser desfechada por um homem como você, Vilar.

— Você sabe que eu acredito em estradas — disse Vilar.

— Mas estradas para quê? — disse Otávio. — Isto é que você deve perguntar a você mesmo.

— Ué — disse Vilar — para os brasileiros andarem. Para se conhecerem.

— A única estrada que teria podido trazer esse encontro dos brasileiros foi a que abriu a Coluna Prestes — disse Otávio. — Depois de ter marchado com a Coluna eu não me incomodo de morrer frustrado e inútil como estou agora. Só gostaria de poder comunicar aos outros o que foi a marcha da serpente cáqui que cresceu três anos e que foi de Sant’Ângelo das Missões ao Maranhão, paciente, tentando o Brasil, procurando atraí-lo à violência. Hei de sentir até morrer o cheiro dos cavalos suados, de perneiras e talabartes molhados, de pólvora, de um churrasco de boi gordo depois de dias e dias de frutinhas do mato e café ralo do bagageiro Eduardo. Tenho tudo em cheiros dentro da cabeça. Cheiro das velas de carnaúba iluminando a trilha da Coluna na serra do Sincorá, cheiro dos chãos de queimada nova onde a pata do cavalo ainda ciscava brasas. Cheiro limpo de cinza. De sangue.

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Tanto Nando como Vilar ficavam em silêncio à medida que falava Otávio em voz baixa, carregada de emoção. Sentindo a Coluna farfalhando cáqui e procurando virar os olhos dos brasileiros para dentro do Brasil. Chegados ao campo de pouso Otávio ainda falava, mas Vilar já saíra do círculo da sua voz. Vigiava duro as turmas de Eleutério e Vanderlei derrubando árvores, roçando o cerrado, penteando as pistas.

— Imagine, Padre Nando, se um homem como Vilar reeditasse a marcha da Coluna — disse Otávio.

— Como é? — disse Vilar. — Explêndida a marcha. Você devia escrever esse troço, palavra. Vanderlei! Primeiro acaba a capina, depois varre. Assim não adianta.

— Vilar — disse Otávio irritado — é uma espécie de máquina de desbravar.

— É preciso que alguém desbrave, velhinho — disse Vilar — depois outros verão o que vão fazer com o roçado.

— Vão deixar crescer o capim outra vez — disse Otávio. — Para eles próprios pastarem.

— Ah, Otávio — disse Vilar — se me derem tudo que preciso eu calço a Transbrasiliana de um jeito que nunca mais cresce nem pó em cima. Os brasileiros vão poder patinar do Oiapoque ao Chuí!

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O campo de pouso do Posto Capitão Vasconcelos ficou que parecia um aeroporto internacional devido à loucura de trabalho que todos viram dar em Ronaldo Vilar depois da partida do Ministro Gouveia. Até o Fontoura riu quando viu Vilar entrando de machado em cima das árvores maiores da ponta sul do campo, que não tinha tido intenção de derrubar antes.

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(...) Um morrote grosso de buriti que ia levar tempo demais a desmontar, Vilar derrubou para alegria dos índios enfiando nas profundas uma carga de dinamite que desarraigou o morro do chão e fez uma palmeirinha corcovear no espaço dentro dum jato de pedras e de terra. Só quando o campo já estava liso, enorme, limpo e os homens de Vilar ajudados por índios lhe pintavam no centro uma grossa risca de tabatinga branca, é que Vilar praticamente levantou a cabeça.

— Amanhã de madrugada decolamos de volta a Ceres. Vamos arrumar tudo agora — disse a Eleutério e Vanderlei.

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— Mas você já tem peixe que chegue para esse quarup, não tem?

— Que peixe que chegue, coisa nenhuma — disse Fontoura. — Você não vê que em volta do Posto nasceu um bruto acampamento de hóspedes calapalo, juruna, uaurá? Mas deixa, deixa que a gente se arruma.

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(...) Quando Fontoura desapareceu Vilar se dirigu a Nando.

— Vamos fazer uma surpresa a esse caiapó honorário. Vamos entupir as malocas de peixe.

— De agora para amanhã de madrugada? — disse Nando.

(...)

Em companhia de Nando, Vilar foi direto à procura de Canato que preparava, com um caroço de tucumã e cera, uma flecha de assobio para jogar javari enquanto suas duas mulheres punham beiju para secar em cima de baitas jiraus que mais pareciam quaradores.

— Canato — disse Vilar — vamos pescar muito peixe.

— Muito peixe? Mais timbó?

— Que timbó que nada — disse Vilar. — Bomba.

Pela primeira vez Nando viu um rosto de índio verdadeiramente expressivo, as íris de Canato reluzindo no rosto meio lambuzado de urucum.

— Bomba? — disse Canato.

— Bomba.

— Assim feito a bomba do campo? — disse Canato.

— Claro, seu palerma — riu Vilar. — Dinamite. Não tem peixe que escape.

Canato se levantou num repelão, jogando a flecha para um lado. Depois parou, duvidoso.

— E Fontoura? Fontoura vem?

— Não. Fontoura não gosta de dinamite no peixe — disse Vilar.

— Eu sei — disse Canato. — Fontoura fica brabo.

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— Você bota a culpa em mim — disse Vilar batendo no peito.

— Icatu — disse Canato rindo às gargalhadas.

(...)

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Finalmente, vinha chegando Fontoura. Violento.

— Que brincadeira foi essa?

— Peixe para o quarup — disse Vilar.

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Ninguém ia dormir cedo aquela noite no Posto Capitão Vasconcelos. Vilar transformava o trabalho do quarup numa espécie de violento folguedo. Com Vanderlei e Eleutério, com o Capitão Canato e os índios, Vilar foi buscar lenha da derrubada no campo de pouso e pôs-se a desbastar os paus para fazer dezenas de moquéns para moquear milhares de peixes. A febre se comunicou ao mulherio índio que armazenava o peixe já moqueado e abria caminho para os peixes das bombas. Os jiraus do moquém afogueados pelos braseiros transbordaram do terreiro, se esparramaram pelas cercanias. As tribos recém-chegadas davam sua mãozinha aos anfitriões. Cuias de caxiri circularam. Mulheres puseram-se a dançar em fila. E voltava Vilar segurando pela proa, acima da cabeça avermelhada pelo fogo, uma ubá com os últimos peixes, segurada na popa por Sariruá. A ubá foi despejada no meio do terreiro e até os curumins e cunhantãs às gargalhadas puseram-se a escamar peixe, a limpar peixe, a botar peixe nos moquéns.

(...)

Foi preciso que o Fontoura interviesse, sombrio.

— Agora chega de traquinadas, Vilar. Ainda faltam dias para o quarup.

— Estamos no ensaio geral, velhinho — disse Vilar.

— De mais a mais este não é o espírito em que eles se preparam para uma festa religiosa como o quarup — disse Fontoura. — Trabalham até a festa, exatamente no preparo da festa. Se você fizer tudo está roubando deles o espírito do quarup.

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— Mandar vir o bufê da Colombo não pode — disse Vanda.

(...)

Fontoura chamou Canato, chamou os outros chefes de família. Era preciso recolher o pessoal. E os hóspedes? quis saber Canato com olhos compridos. Eles voltariam aos acampamentos, quando visse a festa morrendo.

— Amanhã continua trabalho do quarup — disse Fontoura. — Dia inteiro. Mas de dia. Até chegar a hora do quarup mesmo.

— Os índios olharam para Vilar, que se afastou imediatamente, como se fosse o primeiro capitão a obedecer o comando do Fontoura. Afastou-se para não levar a brincadeira longe emais. Os índios olhavam para ele como se só esperassem uma palavra do Capitão Vilar para dar as costas ao Capitão Fontoura. Deixados sozinhos diante de Fontoura começaram lentos e pesarosos, pelas mães e pelas crianças, a reconduzir os índios às malocas. As mulheres dançarinas sentiram de repente vergonha da dança e dispararam para casa, rindo. Os visitantes se escoaram para os acampamentos. Em pouco tempo só ficava no terreiro a gaiola cônica da harpia fornecedora de penas, em cujos olhos redondos e profundos se refletiam jiraus e jiraus onde lentamente se moqueavam peixes e peixes.

Vilar foi embora cedinho no dia seguinte. Muito antes do banho dos índios seu Beechcraft aquecia o motor e só depois de decolar é que pegou sol lá em cima. (...)

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p. 249

— (...) [Falua] Você sabe que já existem dois governos não é? o Gegê ainda não assinou a licença mas enquanto ele fala com os ministros dele, Tancredo, José Américo, o Epa, Zenóbio, Farias, Guilobel e o velho Aranha que parece que é o único que quer sair para o tiro, quem senão o nosso Café Filho se reúne em casa no Posto Seis com o novo Gabinete? Lá estão Lacerda, de pé enfaixado e bengala, Alencastro, Juarez, Eduardo Gomes. O Brasil microcéfalo está bicéfalo.

(...)

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— Getúlio nunca foi aos Estados Unidos — disse Otávio.

— Por outro lado — disse o Falua — nunca foi a lugar nenhum Até hoje só conhece Argentina, Uruguai e Paraguai, como qualquer criador de gado.

— Não, não é isto não. O Roosevelt veio cá, não veio, durante o governo do Getúlio? O velho nunca foi lá porque não foi, porque não gosta do beija-mão, não aceita a Casa Grande que é a Casa Branca.

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— Vamos buscar ele amanhã — disse Fontoura. — O Brasil passa a ser governado do Xingu. Do rio Jarina, lá pelo paralelo 10 onde deve estar o coração do Brasil.

— Vão tocar fogo no país — disse Otávio. — Afinal. Recusa de beija-mão, legislação trabalhista, lei de dois terços, reforma agrária em marcha, Petrobrás — os americanos não iam deixar. Mas agora, vai. Agora vamos ter a nossa Espanha. Vamos para Xavantina, Falua!

Referências