Planos inclinados de Salvador sofrem com panes e descaso

Entrada do plano inclinado Liberdade-Calçada: a prefeitura não sabia que ele estava funcionando
Foto: Thiago Guimarães/iG
Ascensores históricos fazem a ligação entre as partes alta e baixa da capital baiana. Moradores e turistas são prejudicados
O elevador Lacerda, de 1873, não é o único modo de subir da Cidade Baixa para a Cidade Alta de Salvador. Há ainda três planos inclinados, como os aparelhos são conhecidos, que unem apelo turístico e serviço à população local – transportam 471 mil pessoas por mês. Os equipamentos, no entanto, sofrem com panes e interrupções constantes.
A reportagem do iG visitou os três planos inclinados de Salvador na tarde de quinta-feira (4). Apenas um, o Liberdade-Calçada, que liga os dois bairros, estava funcionando. Detalhe: segundo nota da prefeitura divulgada no dia anterior, esse ascensor havia apresentado defeito em uma das rodas e só voltaria a funcionar na segunda-feira (8).
“Muita gente veio aqui perguntar: ‘não falaram que só voltaria na segunda-feira’? Eu disse que não sabia de nada, só que estava funcionando”, disse uma bilheteira do plano, que preferiu não se identificar. Segundo ela, o equipamento realmente tivera uma pane, mas voltou a circular na manhã de quinta (4) – o trajeto custa R$ 0,15.
A reportagem procurou a assessoria da Transalvador, autarquia municipal de trânsito responsável pela operação dos ascensores. O órgão reconheceu que desconhecia a informação – uma hora depois do contato, às 17h08 de quinta (4), divulgou a informação sobre a retomada do serviço.
Os problemas não se resumem ao plano Liberdade-Calçada, inaugurado em 1981 e afastado da região turística. Os outros dois ascensores, mais antigos e atrativos aos visitantes, estão parados há meses.
“O plano está parado há mais de três meses, e ninguém sabe o porquê”, reclamava Marivaldo Silva, 36 anos, mecânico em oficina vizinha ao plano inclinado do Pilar. Ligação entre o bairro do Comércio e o Santo Antônio, o ascensor ficou sem funcionar por 22 anos e foi reinaugurado em 2006. Eletrificado em 1910, o ascensor de 71 metros está fechado há cerca de quatro meses, após suspensão de contrato com empresa prestadora de serviço.

Visão interna do plano inclinado Pilar: ele costumava transportar 700 pessoas ao dia. Agora, está parado Foto: Thiago Guimarães/iGAmpliar
Morador de um barraco vizinho ao plano, Tarcísio Oliveira, 24 anos, reclamava da falta de mobilidade diante da falha geológica que divide Salvador em Cidade Alta e Cidade Baixa. “Para tudo tenho que usar o plano, comprar pão, ir à escola”, disse. O caminho alternativo implica em 20 minutos de ladeira em meio a uma favela.
O plano inclinado Pilar, que costumava transportar 700 pessoas ao dia, também fica próximo à área de desembarque de cruzeiros marítimos. “Os gringos que chegam de navios e querem subir ficam todos ‘esbarrados’ aqui”, disse um funcionário de uma transportadora.

Faixa no largo em que se situa o plano Gonçalves.
Ao fundo, a entrada do equipamento
Foto: Thiago Guimarães/iGAmpliar
Protesto
A situação mais crítica, contudo, é a do plano inclinado Gonçalves, fechado desde o início do ano. O equipamento foi construído no século 19, e funcionou por manivelas de 1889 a 1910 – depois passou a usar eletricidade. De longe, já é possível ver faixas e cartazes afixados por comerciantes que protestam contra a queda no movimento causada pela interrupção do serviço.
“Queda de 60% nas vendas prejudicam os comerciários e o comércio. Funcionamento já”, é a inscrição em uma faixa exposta no – vazio – largo que termina no plano. Presos às grades que impedem a entrada no local, outros cinco cartazes e uma faixa de protesto.
“Está todo mundo perdendo vendas, e empresários estão colocando funcionários na rua”, disse o vendedor de roupas Carlos Costa, 43 anos, que ao avistar a reportagem logo sacou um “dossiê” com cópias de reportagens antigas sobre a paralisação do equipamento e promessas de retomada do serviço pela prefeitura.
Segundo a assessoria da Transalvador, o plano Gonçalves está parado porque um prédio de 1911 que fica no topo da encosta apresentou rachaduras e pode ceder. Informou ainda que o equipamento, e também o plano Pilar, passam por revitalização e serão reabertos até o final de outubro deste ano.
A solução passa ainda pela melhora do principal ascensor entre as cidades Alta e Baixa de Salvador. No último dia 29 de junho, uma pane elétrica no elevador Lacerda, um dos principais cartões postais da cidade, deixou dez passageiros presos por 15 minutos, e ainda há relatos de problemas frequentes no local.
Thiago Guimarães, iG Bahia | 06/08/2011 07:00

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