Em lista, Cosan pode enfrentar problemas de crédito e com clientes

A entrada da Cosan no cadastro de empresas flagradas explorando mão-de-obra em condição análoga à de escravidão, publicado pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), impede que a empresa receba financiamento via recursos públicos durante todo o período de permanência na lista. Esse período é de dois anos, caso não haja reincidência ou apareçam dívidas relacionadas a questões trabalhistas junto ao MTE.

A Cosan pode ainda enfrentar problemas junto às distribuidoras para as quais fornece etanol. É o caso da Shell Brasil que, em nota, disse que " foi surpreendida pela notícia" e que solicitou esclarecimentos formais à empresa. A Shell e a Cosan mantêm relação contratual há mais de dez anos. A acusada respondeu que "está tomando de imediato todas as providências formais para esclarecer seu envolvimento no caso e retirar o seu nome do referido cadastro".

A Shell informou ainda que repudia tais práticas de contratação, o que se reflete nas exigências que impõe a seus parceiros comerciais e fornecedores, constantes em "todos os seus contratos comerciais, inclusive com a Cosan".

Já a Petrobras reafirmou seu compromisso com o Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo, do qual é signatária desde 2005, e informou que o caso ainda está sendo analisado pelas áreas Jurídica e de Suprimentos.

Seja como for, está agendada para amanhã uma reunião das distribuidoras no Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e de Lubrificantes (Sindicom), segundo informou a assessoria de imprensa da entidade.

Para o analista de ações da SLW, Erick Scott Hood, se a Cosan não reverter o quadro e sair do cadastro de empregadoras de trabalho escravo, será "bastante prejudicada, dado que não terá direito a financiamento de bancos públicos, especialmente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES)".

O banco de fomento tinha aprovado, em junho do ano passado, R$ 639 milhões para implantação de um projeto novo da Cosan em Jataí (GO) e outros R$ 149 milhões para outra planta de cogeração na unidade de Gasa (SP).

"Além disso, a Petrobras pode rever alguns contratos comerciais" , afirmou Hood. Essa hipótese, porém, não é consenso entre os analistas. O chefe da área de research da Brava Investimentos, Peter Ping Ho, não acredita em alteração dos contratos com a Petrobras, porque a Cosan está presente em seu principal eixo de atuação, o Sudeste. "Apesar de o market share da Cosan entre as fornecedoras da Petrobras estar em volta de 10%, o que não é muito, São Paulo é o principal estado produtor de etanol".

Em nota, a Cosan se defendeu, dizendo que o caso foi originado em um de seus prestadores de serviços. Também afirmou que "adotou prontamente diversas providências, dentre as quais o pagamento de todas as despesas necessárias à regularização de tais trabalhadores".

O analista Erick Scott Hood, da SLW, avalia que as ações da Cosan podem ser prejudicadas no curto prazo, mas, por ser uma empresa com bons fundamentos, deve se recuperar no médio e longo prazo. A queda pode, então, ser uma oportunidade de compra para investidores que visam a prazos maiores.

Na opinião de Ho, da Brava Investimentos, essa questão é pontual. Ele lembra, porém, que a Cosan adquiriu usinas no ano passado, algumas com problemas de caixa, assumindo seu passivo - inclusive trabalhista - e, por isso, poderia correr risco de outras acusações.

"O trabalho precário nas usinas é comum, porque a maioria delas se utiliza de mão-de-obra temporária, ficando ociosas grande parte do ano. Os trabalhadores costumam ter uma meta diária no colhimento da cana-de-açúcar, o que os faz trabalhar muitas horas. Como as luvas e a máscara reduzem sua produtividade, eles próprios preferem não usá-las. O MTE considera tudo isso, bem como a remuneração inadequada" , explica.

No entanto, o analista avalia que as usinas já caminham para a mecanização do trabalho nas colheitas, o que deve minimizar, futuramente, os riscos da Cosan, embora isso dê vazão a uma desocupação no campo. "Dentro de dois anos, o Ministério e as usinas devem fechar um acordo em prol da mecanização. Todo o processo de produção, incluindo a colheita, deve ser mecanizado, com consequente aumento da produtividade".

Ele lembrou que já existe um acordo vigente no estado de São Paulo, de redução da queima da palha da cana, até 2014, o que deve contribuir para a mecanização.

A entrada da Cosan no cadastro do MTE foi muito comentada hoje e as ações da empresa caíram 5,32%, aos R$ 23,46.

(Karin Sato | Valor) | Valor Online | 07/01/2010 20:11

http://www.valoronline.com.br/?online/geral/228/6038333/em-lista,-cosan-pode-enfrentar-problemas-de-credito-e-com-clientes#ixzz0c3hIH6BX

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