Estrada de Ferro São Paulo - Rio Grande
Referências: Contestado, EF São Paulo - Rio Grande (EFSPRG), José Niepce da Silva, Paraná, Farquhar (Sindicato, Trust), Afonso de Camargo, Salvador de Mendonça, Alberto Torres, jornalista Oswaldo Cabral, Antônio Lúcio, senador Sampaio Correia ([Corrêa?] prof. Escola Politécnica do Rio de Janeiro)
p. 81-89
Deu-se a essa chacina antipatriótica e covarde o nome de "Guerra do Contestado", que se desenvolou, entre 1912 e 1916, contra simples e inofensivos posseiros, cuja única ambição era que os deixassem trabalhar e viver.
(...) os motivos que determinaram a tragédia: um contrato de construção de estrada de ferro desonesto (...).
Uma causa importante motivou o recrudescimento da luta: um erro grave da Constituição de 1891 (...) que, pelo seu artigo 64, atribuiu aos Estados a posse das terras devolutas até então pertencentes à União, possibilitando a vinte indivíduos (...) tratarem essas terras como coisa sua, a eles pertinentes e não ao Brasil.
(...) um certo homem público do Paraná, Afonso de Camargo, que chegou a ser Governador daquele Estado, conseguiu, impunemente, vender, a preço vil, uma incalculável riqueza em matas, que não eram suas, enriquecendo chafurdado no sangue de milhares de brasileiros trucidados por soldados estrangeiros.
Essa façanha foi confessada por Afonso de Camargo, quando ele era vice-presidente do Estado, num discurso despudorado e mal redigido que fez no Legislativo Estadual e que está publicado no Diário da Tarde de Curitiba, de 21/2/1914:
"Eu, que procurava servir aos amigos políticos nas respectivas localidades, como até hoje não tenho feito outra coisa, atendendo às indicações dos diretórios locais, encontrava sempre, da parte da Secretaria de Obras Públicas, as maiores dificuldades."
Essas "dificuldades" eram a oposição que o Secretário de Obras, engenheiro José Niepce da Silva, fazia às negociatas de Afonso de Camargo, presenteado, posteriormente, já muito rico, com o cargo de presidente do Estado, enquanto Niepce era afastado para um insignificante cargo em Apucarana, um longínquo interior.
Numa série de artigos publicados em A Tribuna, de Curitiba, nos dias 11, 12, 13 e 14 de fevereiro de 1914, o engenheiro Niepce cita vários casos de vultosos negócios escusos de terras, consumados apesar de seus pareceres contrários; conta, também, que quase diariamente comparecia, para defender os interesses da "Lumber Colonization", os seus, e os interesses dos "coronéis" amigos, à Secretaria o vice-presidente Afonso de Camargo.
Depois, foi fácil fazer-se governador.
(...)
Os "coronéis", desavergonhadamente autorizados, compravam a preço vil as terras (...); e vendiam-nas com grande lucro a consórcios estrangeiros; a venda direta a estes também foi realizada em grande escala.
Só no Paraná, até fins de 1914, a Estrada de Ferro São Paulo - Rio Grande ("Brazil Railway") demarcou a brincadeira de mais de seis bilhões de metros quadrados ["metros quadrados"!!!???...] (248.000 alqueires) de matas adquiridas diretamente do Estado, uma fortuna preciosa em madeira (...).
(...) a empresa contratante receberia, em ouro, quarenta contos, setecentos e dez mil-réis por quilômetro construído.
(...) os concessionários receberiam de presente uma faixa de terra de trinta quilômetros de largura, ao longo da ferrovia, podendo essa faixa variar de 9 a 21 quilômetros de cada lado da linha.
A riqueza em madeira nobre dessa larga faixa permitiu à Lumber montar duas importantes serrarias: uma em Calmon, estação da São Paulo - Rio Grande, outra em Três Barras, na margem do rio Negro, divisa do Paraná e de Santa Catarina.
(...)
A serraria de Calmon foi incendiada por sertanejos revoltados que estavam sendo expulsos de suas "posses"; (...) o mesmo acontecendo com o edifício da estação, cujo chefe doi assassinado.
(...)
A serraria de Rio Negro foi, ao tempo, a maior da América do Sul; diante dela todas as outras pequenas serrarias da região tiveram de fechar por falta de matéria-prima, pois a Lumber "comprara" todas as matas vizinhas ao traçado de sua linha.
Era uma serraria totalmente mecanizada e, mesmo assim, trabalhavam nela 800 homens.
Para poder exportar toda a madeira que descobrava (...) a Lumber construiu uma estrada de ferro que ia de Três Barras até o porto catarinense de São Francisco e vários ramais provisórios para ir buscar toras nas matas mais distantes.
(...)
Primeiro a Lumber distribuía editais dando prazo aos brasileiros para que abandonassem suas glebas, pequenos sítios onde trabalhavam, às vezes hereditariamente, havia mais de cem anos; párias na própria pátria, alguns afundavam mais no sertão; outros lutavam.
(...)
E então o Corpo de Segurança da empresa estrangeira passava a destruir e incendiar os casebres (...).
Não há exagero no que estamos contando; o que há, e chega a ser misterioso, é a subtração da verdade que só aparece em livros especializados e raros.
(...)
A situação internacional do Brasil, editado em Paris, em 1913, escrito por Salvador de Mendonça, Enviado Extraordinário e Ministro Plenipotenciário do Brasil nos Estados Unidos e O problema nacional brasileiro, de Alberto Torres.
Resta citar o magnífico compêndio do professor Maurício Vinhas de Queirós, Messianismo e conflito social (...).
Salvador de Mendonça denuncia que o Sindicato Farquhar vinha se apoderando de enormes zonas do Brasil, territórios maiores do que a Bélgica e a Holanda, além de extensas redes de estradas de ferro, portos (...).
São de Alberto Torres (pág. 21, obra citada, MEC), as seguintes palavras:
"Compreende-se que não tivéssemos consciência da falsa orientação social e econômica do país, enquanto a realidade se não tinha apresentado como um fato indiscutível da nossa progressiva e crescente desnacionalização; enquanto a fome, a miséria, a superstição se não haviam mostrado como fenômenos comuns e extensos por vastas regiões do país; enquanto a verdade flagrante da lenta viória dos colonizadores e comerciantes estrangeiros, na vagarosa conquista social da fortuna e do bem-estar não havia progredido até o caso assombroso da quase instantânea invasão do país por uma organização financeira, talvez a mais poderosa do mundo: uma ocupação imperialista por escalada e por assalto, a realização de um sonho expansionista diante do qual a ambição de Cecil Rhodes pareceria o inócuo projeto de uma partida de esporte".
(...)
Essa luta cruel se iniciava em 1911, quando os posseiros que se mantinham na faixa concedida à São Paulo - Rio Grande começaram a ser expulsos pelo Corpo de Segurança da Lumber integrado, na época, por duzentos homens comandados por um antigo oficial da Força Pública do Paraná.
A respeito dessas expulsões escreveu o jornalista Oswaldo Cabral:
"O caboclo da região (...). Sobre o vale do rio do Peixe, em terras devolutas, instalara, aqui e além, o seu rancho, a sua pequena roça. Vivia rudimentarmente esquecido no meio do mato. Lembraram-se dele, entretanto, para expulsá-lo das terras que ocupava. A concessão feita à São Paulo - Rio Grande, de 15 quilômetros de cada lado da linha, desalojou os intrusos, posseiros de muitos anos, das terras marginais".
Antônio Lúcio, em tese apresentada em 1952 à Conferência das Classes Produtoras de Santa Catarina, atribuiu a essas expulsões a causa principal da revolta daqueles homens do sertão. Diz ele:
"Nós sabemos como são feitos os despejos em nosso país. Tudo se resolve com a polícia. Esta chega e vai deitando fogo aos humildes casebres do elemento nacional e se este tenta reagir vão massacrando até suas famílias".
(...) (EFSPRG — Estrada Feita só Para Roubar o Governo —, na graciosa interpretação que o povo fez de sua sigla), um emérito professor da Escola Politécnica do Rio de Janeiro, o senador Sampaio Correia, contou, um dia em aula, o seguinte:
Convidado para a inauguração do trecho que vai de Itararé a Ponta Grossa, o presidente Afonso Pena comunicou que não poderia ir, mas surgiu inesperadamente, cedo, no dia, em Itararé.
Aquela presença repentina do presidente foi como que uma pedra num formigueiro.
(...)
Os responsáveis pela construção, uma oitava maravilha do mundo, confabulavam e corriam como baratas espantadas, pois temiam observações não elogiosas do presidente.
Acharam, entretanto, uma solução:
Seguraram o velho Afonso Pena em Itararé com Missa em Ação de Graças, banquete, discursos e outras cerimônias, até o anoitecer, e a inauguração foi feita em plena escuridão de uma noite de quarto minguante, com o carro presidencial ligado à cauda do trem...
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