‘Cicatriz’ divide cidade em duas grandes áreas
Botucatu é cortada pelos trilhos da ferrovia que, após 1999, com a privatização, deixou no abandono imóveis e vagões
Botucatu era a unidade regional da Fepasa, tinha um corpo administrativo, oficinas de vagões, entreposto de mercadorias, residências, enfim um conjunto arquitetônico importante que passou por um verdadeiro desmanche de toda a estrutura depois que a Fepasa foi entregue à União após a concessão do trecho ferroviário, explica o secretário municipal de Planejamento, Carlos Eduardo Colenci.
A destruição dos imóveis da ferrovia começou em 1999, com a desativação do trem, lembra o presidente do Centro Cultural João Carlos Figueiroa. “Um único prédio foi salvo da depredação porque em 2000 a administração municipal colocou lá a Secretaria da Saúde. O poder público protegeu como pôde. A situação da estação foi estabilizada porque tem vigia e tudo foi fechado com tapumes.”
Do lado norte da cidade, rua Major Mateus não houve como evitar o sucateamento, ressalta Figueiroa. “Porque os trilhos estavam ali, os carros de passageiros de aço inoxidável foram cortados a golpes de machado ou gás acetileno e nós tivemos furtos generalizados. A cidade não conseguiu conter. De 2000 a 2007 tivemos um recrudescimento muito grande da degradação. Não só pelo furto dos equipamentos, pelos trilhos, mas também pela degradação dos três grandes imóveis que estavam no local.”
As antigas oficinas de locomotivas foram vítimas de um incêndio e depois o desmanche de sua estrutura. “O fogo consumiu todo o telhado do armazém que era para carga e descarga de mercadorias. A estação ferroviária, como era o bibelô da cidade, a população cobrou mais proteção.”
Segundo o Colenci desde 2009 quando João Cury tomou posse começaram as tratativas para conquistar a cessão do patrimônio que ganharão nova roupagem e deixarão de ser espaços mal ocupados. “Só não podemos mexer com as mais de 20 residências que, segundo a Secretaria de Patrimônio da União, os moradores têm direito de uso por tempo indeterminado.
A recuperação do patrimônio, na opinião de Figueiroa vai significar não só um resgate da história, mas um pouco da recuperação da sua identidade. “É como se a cidade, tendo consolidado sua economia em outras áreas como aviação, produção madeireira, veículos de transporte, se lembrasse de como tudo começou e volta a tratar com carinho o que de fato foi a gênesis de sua prosperidade; o café e a ferrovia. Para cidade significa a recuperação do seu coração. Da sua feição pelo desenvolvimento que a ferrovia provocou.” A área da ferrovia tem 8 alqueires.
Linha férrea conquista a serra de Botucatu
A ferrovia chegou a Botucatu em 1889 quando o trem aportou na estação, fato significativo para a Estrada de Ferro Sorocabana (EFS), porque marcou a conquista da serra, que era um paredão, relembra o secretário de Descentralização e Participação Comunitária do município, João Carlos Figueiroa. “Transpor esse paredão era uma meta que a ferrovia perseguia desde 1884/1885. Tudo começou quando um engenheiro chamado Carlos Schimit veio para descobrir qual era o melhor lugar por onde a ferrovia deveria subir. Ele deixou para a posteridade 24 planchas, a crayon com o desenho e a nomeação dos plantadores de café. O objetivo da ferrovia era perseguir as plantações de café porque era o mercado de exportação para o porto de Santos.”
Tanto a Sorocabana como a Ytuana, sua concorrente, buscavam as mesmas plantações. A Ytuana foi por outro caminho. Seguiu por Piracicaba. Comprou uma companhia chamada Paulista de Navegação que vinha para os portos de rio embarcava as sacas de café e levava até a ponta da linha Ytuana que embarcava para Santos.
Já a Sorocabana preferiu o espaço seco e veio seguindo do lado oeste do rio Tietê, segundo o secretário. “Veio serpenteando pelas fazendas do café. Encontrou a serra de Botucatu e subiu lentamente o caminho desativado. Esse caminho foi desativado em 53, por conta da retificação dos trilhos. Foram construídos dois túneis, hoje o caminho principal, linha tronco.”
Considerando que à época não existia a tecnologia que tem hoje, as empresas férreas se debatiam para conquistar o paredão. “A Sorocabana serpenteou pelas fazendas de café e foi subindo por onde dava num aclive lento e possível. Ela pulou dos 300 metros para 700 em curto espaço. Seguiu por trás da fazenda Lageado, atravessou a propriedade rural e veio para a 1a estação ferroviária de Botucatu. Estava conquistado o altiplano onde também floresceu muitas plantações. O que ela queria mesmo era atingir o eldorado das plantações que era Bauru, região que não tinha geada.”
Nessa época, por volta de 1920, relembra Figueiroa um só plantador de Bauru tinha cerca de 3 milhões de pés de café. “Aqui em Botucatu existiam plantações na encosta onde a geada não atingia os pés de café. Um almanaque histórico de Botucatu apontava como existente no município 12 milhões de pés de café, distribuídos entre grandes plantações e uma infinidade de pequenos plantadores de café que tinham seus 4 mil pés até 12 mil.”
Fala Povo
O que restou do patrimônio ferroviário?
Antonio Maçan mora há 20 anos em frente à estação ferroviária de Botucatu e assistiu com tristeza à depredação. “Os vândalos invadiram. Quebraram tudo e ocuparam o espaço para uso de drogas e prostituição. Eu gostaria de ver tudo isso recuperado, limpo como a estação de Ourinhos, Sorocaba e Bernardino de Campos.”
Lupércio Casemiro da Silva foi ferroviário por 30 anos e mora na rua Júlio Donini, em frente a um aglomerado de casas de ferroviários. “Está tudo abandonado. Precisam alargar a rua e derrubar o paredão. Dar nova vida a esse local.”
Nair Vitoriano Gomes ocupa uma outra casa da ferrovia, mesmo sem ter tido qualquer parente ferroviário. “Não pago aluguel. Foi um conhecido que cedeu a casa. Faz 10 anos que moro aqui. A casa é de madeira e tem cinco cômodos. Tivemos uma reunião com o prefeito e ele prometeu solucionar casos como o meu.”
José Vitor Dias mora há 40 anos próximo do antigo depósito e da oficina. Desde que os imóveis foram abandonados que as madrugadas da família dele não são as mesmas. “Tiraram até o telhado. Durante a madrugada, eles usam o espaço para uso de drogas. Tirou nosso sossego.”
Trem transportava os tuberculosos
O distrito de Rubião Júnior onde hoje está instalado o Hospital das Clínicas de Botucatu começou com uma estação férrea, a Capão Bonita. O ar puro e seco eram os fatores principais para o tratamento de tuberculose que avançava pelo País.
Os doentes usavam o trem para vir a Botucatu e recuperar a saúde, ressalta o secretário, João Figueiroa. “Eles vinham de todos os cantos do Estado de São Paulo, Paraná, enfim onde os trilhos alcançavam. No início do século 20, o distrito prosperou com casas de repousos da iniciativa privada.”
Nos anos 40, o Estado começou a construir um grande hospital para tuberculosos. A obra demorou tanto que quando ficou pronta, o remédio para o tratamento da tuberculose já havia sido descoberto e os doentes não precisavam mais se isolar. “Ficou o elefante branco por mais 10 anos. Até que a cidade se mobilizou para colocar lá escola universitária e foi a de medicina.”
Rita de Cássia Cornélio | Jornal da Cidade de Bauru | 21/11/2010

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